Gilberto Calixto Rios: São Paulo Antiga – 27.03.16

SÃO PAULO DO CAMPO:
UM POVOADO PERDIDO NA BOCA DO SERTÃO

Paço Municipal em 1628

No alvorecer do século XVII, a então vila de São Paulo do Campo, ainda era um povoado muito pobre, com sua pequena população sobrevivendo dos parcos recursos que uma incipiente lavoura lhes proporcionava.

Vale aqui lembrar, que desde 1580, com a morte do ainda jovem monarca português Dom Sebastião, por falta de herdeiros, a coroa lusitana fora absorvida pelo império espanhol, coisa que perdurou até 1640. Essa troca de reinos lá fora, por aqui teve poucos efeitos, já que nenhuma das cortes se importava com esse vilarejo perdido sertão à dentro, lá “nas partes do Brazil”. Justamente por não contar com a ajuda dos governantes, é que a nossa São Paulo, acabou criando esse sentimento de independência, que a guiou pelos séculos seguintes.

O quadro acima, OST foi produzido pelo artista José Wasth Rodrigues, pertencente ao acervo do Museu Paulista da USP. Trata-se de uma concepção artística de como teria sido a primeira Câmara Municipal de São Paulo, no ano de 1628, situada no Pátio do Colégio, mais ou menos no local onde está hoje em dia, o monumento da fundação da cidade.

Igreja do Colégio - 1.700 DCSem poder esperar nada da metrópole, a Câmara (ou Conselho), o órgão que governava essa “república”, como ela se autodenominava, ia administrando e fazendo justiça, apenas na estrita observação das “Ordenações Reais”, uma compilação de leis (mistura de constituição e código civil) que regulava a vida nas vilas e cidades do reino.

Dinheiro mesmo, por aqui havia muito pouco, e se praticava largamente o “escambo”, que é a troca de mercadorias. Isso se aplicava tanto na venda de produtos e bens, como no pagamento de serviços. As “moedas” eram os panos de algodão, açúcar, carnes, cera, couro, gado, porcos, etc. Dessas pretensas “moedas”, a que se usava mais, principalmente pela sua divisibilidade, eram os grosseiros tecidos de algodão, produzidos na terra. Tamanha era a falta de numerário, que até a municipalidade chegou ao vexame de pagar “em palha” o salário do porteiro do Conselho!

Igreja da Sé e São Pedro - 1.700 D.C.

Registros dessa época retratando esses casos eram inúmeros. Era especificada sempre, a qualidade da mercadoria a servir como “moeda”: …açúcar branco e rijo e de receber ao fôro da terra. Pagamentos em tecidos: …e pagarei com vinte varas de pano de algodão cru assim que voltar do sertão…

Havia casos (poucos) em que o vendedor, não aceitava a simples troca: …prometo pagar mil réis pelo trigo adquirido, em dinheiro de contado, em janeiro vindouro… Essa falta de dinheiro “de contado”, como se falava, só começou a ser resolvida a partir do último quarto daquele século, quando começou a vir do sertão, o ouro e as pedras preciosas trazidos pelos bandeirantes, de Minas, de Goiás e de Cuiabá.

Importante citar que todas estas obras artísticas expostas neste artigo são de José Wasth Rodrigues, pintor, desenhista, ilustrador, ceramista, professor e historiador brasileiro, nascido em São Paulo em 1891.


Gilberto Calixto RiosGilberto Calixto Rios
Fotógrafo profissional
Trabalhos sobre São “Paulo Antigo”
Bisneto do pintor e historiador Benecdito Calixto

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