Gilberto Calixto Rios – São Paulo Antiga – 11.04.16

UM INÉDITO CASO NA SÃO PAULO ANTIGA: A CAMA DO GONÇALO

SP 4 - A Cama de GP Corria o ano da graça de 1620. Na pequenina vila do planalto, os dias transcorriam devagar e calmamente, com aquele povo tratando de seus afazeres diários. Na Câmara, um sobressalto: um estafeta entra esbaforido, com mensagem urgente do Capitão-mor de Santos.

Reunidos às pressas os vereadores tomam ciência, que daí a alguns dias, estará na vila um ouvidor de Sua Majestade, o senhor Amâncio Rebelo Coelho, que está em visita de correição à colônia.

O ouvidor ficaria alojado ali mesmo na Câmara, mas onde iria dormir, se ali havia apenas um simples catre, e não uma cama de verdade?

Depois de discutirem o caso, um dos “homens bons”, lembrou que, ali mesmo na vila, o cidadão Gonçalo Pires tinha uma cama, com sobrecéu e tudo e, comprada no Reino! Então, redarguiu o presidente da Câmara: “que se vá até lá, e peça-se emprestada a dita cama!”  Vale aqui lembrar que, o dito Gonçalo Pires, era um homem teimoso e birrento por demais. Apesar disso, era uma pessoa importante na vila, descendente dos primeiros colonizadores. Era um carpinteiro dos melhores, fora vereador e almotacel, e acumulara bens consideráveis.

Assim que chegaram à residência do dito cujo, os vereadores explicaram com toda a paciência, a que tinha ido. O Gonçalo, de cara amarrada, escutou, escutou e, no final, disse um sonoro – não! “Que a cama era dele, comprada no Reino à duras custas, e que não dormiria no chão, como seus serviçais”. Os vereadores, de cabeça baixa, voltaram para a Câmara e lá, em nova reunião, propuseram que se pagasse um aluguel pelo móvel, ou até uma compra, se necessário fosse. Só que, mais uma vez voltando lá, deram com os burros n’água, pois o homem afirmou, muito bravo que: “não emprestaria, não alugaria nem venderia a cama, e ponto final!”.

SP 4 - Vista do centro - 1862
À Câmara, não restou outra alternativa: “que vá lá um oficial de justiça com um mandado de requisição da cama, coercitivamente, se preciso for!” E assim foi feito. O Gonçalo esbravejou, ameaçou céus e terras, mas foi seguro por dois guardas, e a cama foi levada à força, e mais o colchão e as roupas de cama, deixando-o desconsolado e raivoso, em sua porta.

O que sabemos, é que o ouvidor fez o que era de sua competência, e foi embora, satisfeito com a boa acolhida. Uma semana depois, empregados da Câmara bateram à porta do Gonçalo, para devolver o móvel e as roupas, devidamente lavadas e passadas. Mas… quem disse que o homem aceitava? Olhou a cama e inventou que teriam causados danos ao móvel. Enfim, “só receberia o móvel, no mesmo estado que o tinham levado, ou uma cama nova”. E não recebeu, mesmo!

Mesmo depois de muitas explicações por parte da Câmara, e depois de quase uma dezena de tentativas, por meses à fio, os vereadores desistiram, deram o caso por encerrado, e a cama ficou jogada nos porões do prédio municipal.

Alguns anos depois, o Gonçalo, em seu leito de morte, instado por um dos filhos a resolver em definitivo o caso, esbravejou com o mesmo, e proibiu que, mesmo depois de sua morte, algum parente recebesse a cama de volta. Dias depois, ele fechou os olhos e foi enterrado, assim como a caso de sua cama, que passou à História.


Gilberto Calixto RiosGilberto Calixto Rios
Fotógrafo profissional
Trabalhos sobre São “Paulo Antigo”
Bisneto do pintor e historiador Benecdito Calixto

Colunista da www.revistapaulista.com.br
www.facebook.com/gilberto.calixtorios
gibarios@gmail.com


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