Lançamento: A Fugitiva, de Lorenzo Mammì

A música não se deixa capturar pelas palavras — é ela própria a eterna fugitiva a que se refere o título deste livro. Consciente dessa dificuldade intrínseca, que lhe serve de desafio e de guia, Lorenzo Mammì reúne aqui uma espiral vertiginosa de escritos que testemunham quase trinta anos de convivência ensaística com a arte dos sons. Em vez de cair em espasmos verbais ante o indizível (como os daquele impagável professor Kretzschmar que, no Doutor Fausto de Thomas Mann, tenta tocar Beethoven e ao mesmo tempo explicá-lo), Mammì exercita um modo límpido e altamente complexo de aproximação a suas múltiplas dimensões.

Abordando as mais diferentes épocas e os mais distanciados gêneros, da canção brasileira ao serialismo, do canto gregoriano à ópera, ao jazz e ao rock ‘n’ roll, passando por Mozart, Rossini, Wagner, Debussy e Villa-Lobos, entre outros compositores, o ensaísta busca surpreender as manifestações e as configurações musicais “com a guarda baixa, a descoberto”, isto é, exposto aos meandros concretos de sua diversidade, às suas peculiaridades insidiosas, captando-as com a inteligência focalizada e também com a atenção flutuante, livre dos preconceitos que interditam a circulação entre suas áreas.

Reunião rara de erudição, clareza didática, amplo repertório analítico-interpretativo e alta imaginação ensaística, o livro mobiliza um método requintado de caça aos indícios que as práticas musicais secretam por meio dos sons e dos seus usos, realizando um trabalho permanente de caracterização dos contextos em que elas gravitam e um exame dos mais delicados expedientes internos pelos quais enveredam. Entranhada em todos os níveis, a história social, presente ou latente, comparece como chave impulsionadora de decifração, ao invés de fechadura obrigatória.

A fugitiva é a viagem de um pensamento crítico poderoso e sutil que, se não abarca, abraça milênios de música num arco generoso de reflexão que vai dos primórdios da escrita musical ao fim da era do disco.

LORENZO MAMMÌ nasceu em Roma, em 1957. Fez graduação em música e doutorou-se em filosofia pela Universidade de São Paulo, onde é professor de história da filosofia medieval desde 2003. Como crítico de música e de arte, organizou e publicou ensaios em diversos livros, como Volpi e Carlos Gomes. Na Companhia das Letras, publicou O que resta, e organizou Vida de Rossini, de Stendhal, e 8X fotografia, com Lilia Moritz Schwarcz.

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