Falar de Salete Campari é contar uma história de coragem, perseverança e conquistas construídas com talento, sensibilidade e um profundo compromisso com a justiça social. Sua trajetória ultrapassa os limites dos palcos e das luzes da noite paulistana para se transformar em um verdadeiro legado de luta, representatividade e defesa da dignidade humana.
Nascida em maio de 1969, na cidade de Araruna, interior da Paraíba, Salete carregava desde cedo a esperança de um futuro melhor. A vida lhe apresentou desafios ainda muito jovem. Após perder os pais, precisou encontrar forças para seguir em frente e construir o próprio caminho. Foi movida por sonhos, determinação e coragem que, em meados da década de 1980, deixou sua terra natal e partiu rumo a São Paulo, a maior metrópole do país.
Na bagagem, levava pouco além da vontade de vencer. No coração, porém, carregava um universo de possibilidades. Ao lado do irmão mais velho, no bairro Jardim Aeroporto, iniciou uma nova etapa de sua vida. A cidade grande apresentou dificuldades, mas também abriu portas para que seu talento florescesse. Ainda muito jovem, descobriu na arte uma forma de expressão, liberdade e pertencimento. Frequentando espaços que marcaram a história da diversidade paulistana, como as tradicionais casas noturnas Val Improviso e Nostro Mondo, encontrou um ambiente onde poderia desenvolver sua criatividade e construir importantes amizades.

Foi justamente nesse período que conheceu Miss Bia, renomada artista transformista da cena paulistana. A afinidade entre as duas rapidamente se transformou em amizade e admiração mútua. O incentivo para subir aos palcos surgiu naturalmente, revelando ao público uma artista carismática, talentosa e dona de uma presença marcante. A partir desse momento, Salete Campari iniciou uma caminhada brilhante na noite paulistana. Sua elegância, simpatia e profissionalismo conquistaram admiradores por onde passava. Casas noturnas icônicas como Nostro Mondo, Túnel do Tempo, Rave Gent’s, Salvation, Tunnel e Massivo testemunharam o nascimento de uma das mais importantes personagens da cultura LGBT+ brasileira.
Cada apresentação representava uma vitória. Cada aplauso confirmava que seu talento era maior que qualquer obstáculo. Com dedicação e disciplina, construiu uma carreira sólida, baseada no respeito ao público e no amor pela arte. Ao longo dos anos, tornou-se uma figura emblemática da vida noturna de São Paulo. Sua atuação como hostess em festas, eventos e grandes encontros culturais transformou-se em referência. Sempre elegante, receptiva e atenciosa, Salete conquistou reconhecimento não apenas por sua imagem artística, mas principalmente pela forma gentil com que acolhia todas as pessoas.

Seu sorriso, sua educação e sua capacidade de ouvir tornaram-se marcas registradas. Em um universo muitas vezes marcado por preconceitos e exclusões, ela escolheu construir pontes, oferecer acolhimento e promover o respeito. Mas sua história não se resume aos palcos. Enquanto brilhava como artista, Salete compreendia que a visibilidade conquistada poderia servir a uma causa maior. Assim, passou a atuar intensamente em defesa dos direitos humanos e da população LGBT+, tornando-se uma das vozes mais respeitadas do movimento.
Durante a década de 1990, consolidou sua atuação como ativista cultural e defensora da cidadania. Sempre guiada por princípios éticos e pelo senso de justiça, participou de inúmeras iniciativas voltadas à promoção da igualdade, do respeito à diversidade e do combate à discriminação. Sua militância foi construída com diálogo, responsabilidade e compromisso social. Salete compreendeu que cada conquista individual só faria sentido se pudesse contribuir para a construção de uma sociedade mais inclusiva para todos. Seu envolvimento com a vida pública ampliou ainda mais seu alcance. Em 2008, ingressou na política partidária e colocou seu nome à disposição da população, disputando uma vaga no Legislativo municipal. Mais do que uma candidatura, sua participação representava a presença da diversidade em espaços historicamente negados à comunidade LGBT+.

Posteriormente, atuou como assessora parlamentar do então senador e deputado Eduardo Suplicy, colaborando em pautas voltadas aos direitos humanos, à cidadania e à inclusão social. Também teve passagem pela área da educação, exercendo a profissão de professora de matemática por um breve período. Embora possuísse formação acadêmica na área, descobriu que sua verdadeira vocação estava no trabalho social, cultural e artístico. Sempre comprometida com as causas humanas, continuou ampliando sua atuação política e cidadã. Em 2010, disputou uma vaga para a Assembleia Legislativa de São Paulo. Mesmo alcançando expressiva votação, ficou na suplência. Ainda assim, encarou o resultado como mais uma etapa de uma jornada construída com dignidade e perseverança. Ao longo de mais de duas décadas de carreira artística, Salete Campari tornou-se uma personalidade admirada em diferentes áreas da cultura brasileira. Sua versatilidade permitiu que transitasse entre o teatro, a televisão, os musicais, o cinema e a publicidade. Com talento e sensibilidade, homenageou grandes ícones femininos da cultura mundial, interpretando personagens inspiradas em Marilyn Monroe, Carmen Miranda e Elis Regina.
Sua trajetória ganhou registro literário em uma publicação lançada em 2005, que apresentou ao público sua história de vida, seus desafios e suas conquistas. Sua relevância artística também inspirou produções audiovisuais, incluindo um curta-metragem baseado em sua biografia. No mesmo período, foi finalista do Festival Mix Brasil, um dos mais importantes eventos culturais voltados à diversidade na América Latina. Participou ainda da peça “Rosas Brancas para Salomé” e integrou o elenco do consagrado filme “Carandiru”, ampliando ainda mais sua presença no cenário cultural brasileiro.
Reconhecida internacionalmente, esteve entre as pioneiras do Movimento Transformers em Paris, levando para além das fronteiras brasileiras sua mensagem de inclusão, respeito e valorização da diversidade. Sua atuação institucional também merece destaque. Salete participou do Conselho Estadual de Combate à Homofobia e colaborou com iniciativas voltadas à construção de políticas públicas de proteção à população LGBT+. Sua voz ecoou em importantes programas de televisão, alcançando milhões de brasileiros. Participou de atrações como Fantástico, Domingão do Faustão, Vídeo Show, Mais Você, SuperPop e programas apresentados por Adriane Galisteu, entre outros. Cada participação ampliava sua visibilidade e fortalecia sua missão de promover o respeito às diferenças.

Hoje, Salete Campari é reconhecida como uma das mais importantes drag queens da história do Brasil. Sua carreira foi construída com mérito, profissionalismo, disciplina e enorme responsabilidade social. Mais do que uma artista, tornou-se símbolo de resistência, representatividade e cidadania. Sua trajetória demonstra que a arte pode ser uma poderosa ferramenta de transformação social.
Em 2026, sua importância histórica recebeu mais um significativo reconhecimento. Durante as celebrações do Mês do Orgulho LGBT+, Salete foi uma das grandes homenageadas da exposição “Dignidade Já – LGBT+ 2026”, realizada no tradicional Hotel Nacional Inn Jaraguá, no centro histórico de São Paulo. Idealizada pelos jornalistas Leão Lobo e Maurício Coutinho, a mostra reafirmou a importância da memória, da visibilidade e do respeito à diversidade. A exposição reuniu arte, cultura e ativismo em um mesmo espaço, promovendo reflexões sobre direitos humanos e cidadania. Entre os destaques da mostra estava justamente a homenagem dedicada a Salete Campari, cuja trajetória representa décadas de dedicação à comunidade LGBT+ e à defesa da igualdade.
Em meio à elegância do espaço expositivo, sua história emocionou visitantes de diferentes gerações. Fotografias, registros históricos e relatos de sua atuação ajudaram a preservar a memória de uma mulher que transformou sua própria vida em instrumento de transformação coletiva. Ao lado de nomes consagrados como Silvetty Montilla, Sissi Girl, Mama Darling e Leci Brandão Cover, Salete ocupou lugar de destaque em uma celebração merecida e histórica. Sua presença na exposição simbolizou muito mais do que uma homenagem individual. Representou o reconhecimento de toda uma geração de artistas e ativistas que abriram caminhos para que novas vozes pudessem surgir com mais liberdade, segurança e dignidade.

A história de Salete Campari continua inspirando milhares de pessoas. Sua caminhada demonstra que a verdadeira grandeza não está apenas nos aplausos recebidos, mas na capacidade de transformar vidas por meio da empatia, da coragem e do compromisso com o bem comum. Entre luzes, palcos, desafios e conquistas, ela construiu um legado que ultrapassa o tempo. Um legado de amor, respeito, cidadania e esperança.
Salete Campari não é apenas uma personagem da noite paulistana. É um patrimônio vivo da cultura LGBT+ brasileira, uma referência de ética, acolhimento e humanidade.
Sua trajetória permanece como exemplo de que a luta por igualdade pode caminhar lado a lado com a arte, a elegância e a generosidade. E é justamente por isso que seu nome continua brilhando, inspirando novas gerações a acreditarem que toda transformação começa quando alguém encontra coragem para ser exatamente quem é.
por Maurício Coutinho
